É comum ouvir histórias de mulheres que enfrentam uma dor persistente na região do baixo-ventre. Muitas vezes, essa dor permanece um mistério, mesmo após anos em busca de respostas. E, quase sempre, vem acompanhada de um olhar desconfiado, como se pudesse ser "coisa da cabeça". Mas a dor é real. É fisiológica. Na maioria dos casos, pouco reconhecida, principalmente quando relacionada a um problema chamado de varizes pélvicas, também conhecidas como síndrome da congestão pélvica.
Esse quadro pode afetar milhares de mulheres em idade reprodutiva, prejudicando o bem-estar, a rotina, o lazer, os relacionamentos e até a autoestima. Com sintomas difíceis de interpretar, é algo que ainda desafia muitos profissionais da saúde, tanto pela falta de conhecimento quanto pela grande semelhança com outras causas de dor pélvica. Mas vale reforçar: dor pélvica crônica não é normal e nunca deve ser ignorada.
O que realmente são as varizes pélvicas
Quando pensamos em varizes, logo vêm à cabeça as veias saltadas nas pernas. Porém, estas alterações vasculares podem afetar outras partes do corpo, inclusive a pelve feminina. As varizes internas na pelve são formadas por veias dilatadas e tortuosas, que acumulam sangue devido ao mau funcionamento das válvulas, muito parecido com o que já se conhece nos membros inferiores (Biblioteca Virtual em Saúde).
Quando o sangue não circula bem, acaba aumentando a pressão sobre tecidos e nervos da região, provocando desconforto quase sempre contínuo. Isso pode evoluir para uma dor lombar ou abdominal profunda, que costuma ser desencadeada por ficar muito tempo em pé, durante o ciclo menstrual ou após as relações sexuais. Muitas pacientes relatam que a “pressão” só alivia deitada.
Sentir dor todos os dias tira qualquer um do eixo.
Por que é tão difícil diagnosticar?
O problema principal está no diagnóstico. Dor pélvica feminina é multifatorial. A lista de causas é longa, e inclui desde endometriose, adenomiose, miomas, alterações da bexiga até distúrbios musculares e emocionais. Muitas dessas condições podem coexistir, tornando a investigação ainda mais desafiadora e lenta (endometriose é outra comum).
Com sintomas que se misturam, e exames que nem sempre trazem a resposta clara, não é raro ouvir histórias de mulheres que passam anos entre consultas, quase sempre desacreditadas, antes de descobrir o real motivo da dor. Em 2021, para tentar melhorar essa comunicação entre especialidades, foi criada a classificação SVP (Symptoms–Varices–Pathophysiology), que padronizou termos e ajudou médicos a se entenderem melhor na troca de informações.
Os sintomas mais comuns e sinais de alerta
- Dor pélvica persistente por mais de 6 meses: geralmente difusa, sem um ponto específico, que piora em pé ou no final do ciclo menstrual.
- Sensação de peso ou pressão no baixo-ventre, às vezes com irradiação para a lombar ou membros inferiores.
- Desconforto após relações sexuais (dispareunia), criando impacto direto na vida sexual e nos relacionamentos.
- Surgimento de veias dilatadas na vulva, períneo ou coxas, mesmo sem história de varizes anteriores nas pernas.
Nem todas as pacientes vão apresentar todos esses sintomas, mas é muito importante prestar atenção na associação entre dor, duração e contexto.
Sintomas confundem: é comum errar
Embora os sinais sejam marcantes para quem sente, do ponto de vista médico a dor pélvica pode ter inúmeras origens. Isso é um grande desafio, pois até o próprio Ministério da Saúde cita que entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva têm endometriose, outra grande causa de dor crônica e que pode coexistir com as varizes internas.
Só para ilustrar, uma mulher com dor na pelve pode passar por ginecologista, urologista, proctologista, fisioterapeuta e, ainda assim, não encontrar a raiz do problema por anos (ou nunca). Essa demora aumenta o impacto negativo nos relacionamentos, na disposição e até mesmo na autoestima.
Diagnóstico: quais exames ajudam (ou confundem)?
O ultrassom transvaginal com Doppler é, geralmente, o exame inicial. Ele pode mostrar o calibre das veias pélvicas e o acúmulo de sangue parado, trazendo pistas importantes. Em casos mais complexos, o diagnóstico pode ser complementado por:
- Tomografia computadorizada: ajuda a mostrar detalhes anatômicos da pelve e da drenagem venosa.
- Ressonância magnética: útil quando há dúvidas com outros métodos.
- Flebografia pélvica: considerada o padrão-ouro, porém é invasiva e só indicada em casos realmente necessários.
Apesar do arsenal de exames, nenhum é infalível. Muitas vezes, o diagnóstico só se fecha após a exclusão de outras doenças.
Quais tratamentos são possíveis?
Receber o diagnóstico de dilatação venosa na pelve costuma ser um alívio e uma surpresa ao mesmo tempo. Mas a boa notícia: existem opções modernas de tratamento. Os primeiros passos costumam envolver uso de analgésicos, fisioterapia pélvica, ajustes hormonais e estratégias de manejo da dor. Em muitos casos, essas medidas já trazem alívio significativo dos sintomas e permitem o resgate da rotina normal.
Tratar pode mudar a vida de quem sofre em silêncio há anos.
No entanto, pacientes com varizes externas visíveis ou dor intensa e persistente podem não responder bem apenas ao tratamento clínico. Para esses casos, existe um procedimento inovador chamado embolização de veias pélvicas. Essa técnica é minimamente invasiva: um cateter é introduzido pela virilha ou braço, guiado por imagem, e libera substâncias que bloqueiam apenas as veias doentes. Não há cortes, cicatrizes ou necessidade de longa internação hospitalar. A recuperação é rápida.
Estudos recentes mostram melhora importante dos sintomas em mais de 80% das pacientes após a embolização. O próprio Governo de Sergipe destaca que tratar varizes, inclusive em locais menos comuns, pode evitar complicações sérias, como tromboflebite e úlceras.
Respostas rápidas para as 5 dúvidas mais comuns
- O ultrassom transvaginal com Doppler é o exame inicial. Tomografia, ressonância e flebografia podem complementar a avaliação.
- Nem toda dor pélvica crônica é causada por insuficiência venosa. Endometriose, adenomiose e outros fatores musculares ou nervosos podem coexistir e confundem o diagnóstico.
- Cirurgia aberta não é indicada atualmente. O método de escolha, principalmente em casos persistentes, são os procedimentos minimamente invasivos como a embolização.
- Fertilidade e varizes internas: ainda está sob estudo. Não existe confirmação clara de que as varizes dificultam engravidar. O foco do tratamento é aliviar os sintomas.
- Quando buscar ajuda? Se a dor dura mais de 3 a 6 meses, atrapalha sua rotina ou vida íntima, piora em pé ou após relações, ou aparecem veias visíveis na vulva ou coxas sem explicação, procure um especialista.
A demanda por atendimento especializado só cresce; dados da Secretaria de Saúde do Piauí mostram fila de mais de 10 mil consultas e 7 mil procedimentos previstos para varizes, traduzindo a necessidade de acolhimento e diagnóstico preciso nessa área.
Conclusão
No fim das contas, conviver com dor não pode ser visto como normal. Buscar informação e atendimento especializado faz toda diferença. Se você sente desconforto há meses, não espere. Dor pélvica crônica merece investigação e, uma vez identificada a causa, tem solução. Procure sempre um profissional com atenção ao tema, afinal, qualidade de vida, bem-estar e autoestima começam pelo cuidado com o próprio corpo.
Perguntas frequentes
O que são varizes pélvicas?
Varizes pélvicas são veias dilatadas e tortuosas localizadas na região da pelve, resultado de dificuldade no retorno do sangue ao coração. Isso leva ao acúmulo de sangue e aumento da pressão local, causando sintomas como dor e sensação de peso no baixo-ventre. Também são conhecidas como síndrome da congestão pélvica.
Quais os sintomas de varizes pélvicas?
Os sintomas principais incluem dor pélvica crônica de longa duração (mais de 6 meses), sensação de pressão ou peso, dor que piora em pé ou após esforços, desconforto durante ou após relações sexuais e o aparecimento de veias dilatadas na vulva, períneo ou coxas sem causa aparente. Esses sintomas podem afetar a rotina, a disposição e a autoestima.
Como é feito o diagnóstico de varizes pélvicas?
O diagnóstico geralmente começa com ultrassom transvaginal com Doppler. Em casos em que não há clareza, podem ser necessários exames como tomografia, ressonância magnética ou flebografia, que é o padrão-ouro, mas considerada invasiva. Muitas vezes é feito também o diagnóstico diferencial para descartar outras causas de dor.
Quais os tratamentos modernos para varizes pélvicas?
O tratamento pode começar com medidas clínicas, como analgésicos, fisioterapia, manejo hormonal e controle da dor. Para casos que não melhoram, principalmente com veias externas visíveis ou dor intensa, a embolização venosa é o principal procedimento minimamente invasivo, realizado por dentro das veias doentes, sem necessidade de cortes e com rápida recuperação. Segundo informações do SUS, tratamentos minimamente invasivos já estão disponíveis em algumas regiões.
Varizes pélvicas têm cura definitiva?
O tratamento moderno, especialmente a embolização, proporciona alívio importante e duradouro na maioria dos casos. Ainda assim, a chance de cura definitiva depende de fatores individuais e da existência de outras causas associadas de dor pélvica. Apesar disso, a maioria das pacientes relata melhora significativa na qualidade de vida após a abordagem adequada.